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Outras Linhas
 


A Deus.
Por Antônio Dourado / Foto: from web

Um indiferente ancião, barba por fazer há séculos, despertou como de costume no sofá inglês da sua biblioteca.
Perguntou ao seu criado mudo há quanto tempo estava dormindo, mas não obteve resposta.
Sem ter nada mais interessante para fazer da vida além de ler e aparar a grama do seu aristocrático e
decadente latifúndio decidiu ficar ali, em meio aos livros e jornais velhos que se acumulavam em todas as
superfícies da sala para concluir uma carta que há muito havia começado. É isso... a carta.
Danem-se os e-mails. Chamou o seu esquálido mordomo e pediu que o almoço fosse servido ali mesmo.
Depois, no seu carcomido dicionário de ideias semelhantes, herdado do avô, procurou atônito, em meio ao
imenso tesouro de sinônimos e antônimos, uma única palavra para assinar o indefectível envelope de prata.
Dentro do invólucro, guardada em mistério, seguiria uma antiga missiva, outrora endereçada a Deus, mas que
agora nada mais dizia além de um singelo adeus. Assim, depois de muito vasculhar sinônimos enfadonhos,
separou uma dúzia de palavras. Amontoando-as num canto, pensou bem e, com a benção de Pandora,
escolheu a Esperança.



Escrito por Antônio Dourado às 16h05
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Fábulas pateticamente iguais.
Por Antônio Dourado / Foto from web

Do alto do castelo tudo parece longe e pequeno. Lá de cima, na torre infinita, um sentinela observa os reles mortais, todos pateticamente iguais. Vigiando a cidadela, o soldado rumina um velho hino de batalha. No capacete o sereno, no escudo um brasão, no bolso a navalha. Os tempos de guerra se foram e, mesmo impecavelmente fardado, o velho guerreiro acha tudo aquilo um fardo. Admirando o horizonte, nosso intrépido combatente vivia divagando: “Devo eu fincar os meus pés aqui? Acho que não, é melhor partir.”. E assim, o condecorado soldadinho de chumbo traçava planos mirabolantes, imaginando mil finais para a sua fábula reconfortante, só que nunca deixava o castelo. Até que um dia, ao perguntar, ouviu de si mesmo a resposta que não queria calar: “quem mais longe quer ir, não hesita em partir.”. O sentinela então se encheu de coragem, largou suas armas e jogou fora os seus medos. Desceu os infindáveis degraus da torre infinita, levando consigo água e uma marmita. Montou em seu velho alazão e partiu galopando com urgência, já que o rei não lhe concederia clemência. Desde então, o velho sentinela nunca mais mandou notícias. Dizem na taberna, de boca pequena e sincera, que o errante soldado lutou muitas batalhas, matou dragões e venceu vilões para, enfim, erguer o seu próprio castelo, de onde observa agora os reles mortais... Todos, ainda, pateticamente iguais.



Escrito por Antônio Dourado às 11h26
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One In a Million.
Por Antônio Dourado
/ Foto from web

Sozinho na grande cidade, único na multidão, um entre tantos.
Entretanto, nada o confortava mais do que caminhar despercebido naquele mar de gente,
misturado à horda de paletós, óculos espelhados e penteados idênticos.
Autêntico, diriam alguns. Indiferente, diria ele.
Na calçada da fama, queimava o filme diariamente, esparramando-se na
sua chaise de papelão, que outrora embrulhou um belíssimo fogão.
Ali fazia caras e bocas, pedindo notas verdes em troca de sorrisos amarelos, porém, sinceros.
Esquisito, mas revelador. Não acreditava em nada, mas defendia o amor.
Assim, se o fim do remédio é o início da dor, que mal há em matar o rancor.



Escrito por Antônio Dourado às 13h23
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Alvo Muro das Lamentações.
Por Antônio Dourado
/ Foto from web

Maltrapilho e à mercê do indulto, concessão da graça, o pobre mendigo beberica a cachaça apoiado no alvo muro das lamentações.

De seu camarote, sem mais ambições, assiste o sacode que balança a santa trindade.

Roto e rasgado conta as migalhas de misericórdia que a babilônia lhe concedeu. Ele, tu, eu.

E assim, sem nome e na calçada da fome, o pobre homem se arrasta em prantos na direção do abismo.

E sobre nós despenca a contundente resposta, de asas frias e mortas, que ninguém quer ver para crer,

pois assim fica mais fácil viver. Só nos resta saber... Por quê?



Escrito por Antônio Dourado às 09h33
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Heaven & Hell Circus.

Por Antônio Dourado / Foto from web.

Naquela estranha e mal fadada manhã, uma imensa cidade acordava calada. Indícios? Tímpanos, trompetes e

trombones. Oboés, clarinetes, fagotes e trombetas. Metais pesados retumbantes. A plenos pulmões, válvulas, tambores e pistões, anunciavam um cortejo. A centopeia aloprada, com roupas pesadas, lentamente desfilava na megalópole morta, ao passo que o povo batia as portas. Cães ladravam e a caravana exibia suas fardas rasgadas, mas sublimes, por entre as ciprestes de um jardim monocromático. Os 24 violinos do Rei silenciaram diante do inevitável, nada de grave em uma manhã tão insólita, quando o pândego batedor anunciou:
- Cuidado com o Santo, devagar com o andor! Enquanto a anestesiada banda dos soldados de chumbo cantarolava hinos fúnebres de amor...



Escrito por Antônio Dourado às 15h44
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Letal Letargia.

Por Antônio Dourado / Foto from web.


Atenção, todos os carros, parachoques da razão.


Mais gás letal por minha conta, efeito moral, granadas de mão.

Elite das tropas, há provas de bala, projéteis perdidos à revelia.

Armas e almas, sonoro encontro. Sirenes sinceras, à prova de tolos.

Álibis à venda, a preço de ouro. Verdades, mentiras e foras da lei.

 

Contra tudo e contra todos, lanço chamas, fogo amigo.

Quem matou o meu cavalo? Onde estão meus inimigos?


Verdades, mentiras e foras da lei.



Escrito por Antônio Dourado às 16h10
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Rien à faire.
Alors, on y va? Allons-y.

Por Antônio Dourado / Foto from web.

A menina disse: Ei Samuel, vc vai congelar neste frio. Desista, Godot não vem... Ou você ainda acredita nesse papo de “quem espera sempre alcança”?

 

E o Samuca, após tirar os fones do seu mp3 player, respondeu: Bom, talvez amanhã.

Vamos nessa, Esmeralda. Eu te pago um café.  

 

E os dois foram embora cantarolando: Em frente o coqueiro verde / Esperei uma
eternidade / Já fumei um cigarro e meio / E Narinha não vejo...



Escrito por Antônio Dourado às 10h55
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Pra bem longe da terra



Pra bem longe da terra.
Por Antônio Dourado / Foto from web (Gettyimages).

A ansiedade da infância entorpecia a princesa que devorava o novo com seus olhos ávidos e, de tanto brincar, adormeceu aos pés da cruz. Dormiu ali, sentada, rendendo-se ao cansaço. Adormeceu porque seu quarto agora era enorme, repleto de janelas e novos brinquedos.

 

Sonhou então que os seus problemas eram balões coloridos, amarrados nas arvorezinhas de um jardim babilônico. Ela então desatava os nós com suas mãos de menina. E assim, ao sabor do vento, os seus problemas iam embora, colorindo o céu cinzento da cidade concreto. A princesa então dançava lânguida, rodopiando seu vestido florido entre girassóis, margaridas e rosas, enquanto o mundo girava em câmera lenta.

 

Encantada, acordou aos pouquinhos, ronronando num sorriso manhoso. Seus olhos brilhavam mais do que nunca. Aparou arestas enquanto dormia, desamarrando problemas. Quem duvida que abra a janela e procure as bexigas, azul, vermelha e amarela, que voam juntas pra longe... Pra bem longe da terra. 



Escrito por Antônio Dourado às 11h59
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Moderadamente Desaconselhável



Moderadamente Desaconselhável.

Por Antônio Dourado / foto from web (Gettyimages).


Atenção, transeunte! Desembarque. Use a faixa e olhe para os dois lados ao atravessar a rua. E, mesmo que na contramão, não encontre a bala perdida. Tenha amor à vida e considere a rede energizada durante todo o período de manutenção. Sem esquecer é claro, por um instante, de calçar sapatos isolantes. Pé no chão, cidadão! Esqueça o refrigerante, mesmo o light. Cerveja, nem pensar. Vai se embriagar? Se beber não dirija e, se dirigir, pelo menos use o cinto de segurança amarradão. Vacilou? Então se retrate e fique bem na foto, ajustando o foco. Reconheça, cresça e apareça. No entanto, erre bastante. Quem não arrisca, não petisca e nem tão pouco aprende. Entende? Intransigência não leva a nada, não vale à pena. Só tem um problema: defenda sempre o seu argumento, mesmo que, de repente, você descubra ser pertinente a lebre que o antagonista levantou. Sacou? Porém, se os sintomas continuarem, procure um médico, um pé de coelho ou um por que. Pra entender, leia a bula ou disque 0800.
Ultrapasse os portões e esqueça os jargões. Se conselho fosse bom ninguém dava... Vendia!
E na moral, leia o texto até o final, mas... Aprecie com moderação.



Escrito por Antônio Dourado às 11h54
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Morro abaixo!



Morro abaixo!
Por Antônio Dourado / Imagem from web.


João adormeceu. E, no colorido de seus sonhos, voou bem alto até despertar.

 

Naquele dia João acordou estranho. Aliás, o morro todo acordou estranho e, curiosamente, quieto.

João não tinha fome nem sede, sua expressão estava inerte, seu cachorro não latiu e balançou o rabo quando João partiu.

 

E assim, pedalando sua magrela, João foi encarar a vida mundo abaixo, na banguela. Sentia o vento no rosto enquanto a paisagem passava rápida por ele. Portas, janelas, varais, tudo ia ficando para trás. João recordava os tempos de criança e de como descia o mesmo morro em sua pequena moto de plástico, presente do pai que não conheceu. O mundo passava rápido e João não conseguia mais acompanhar o ritmo dos pedais. Perdido em seus pensamentos ele não percebeu que a curva do destino também se aproximava rapidamente.

 

Inconseqüente! Gritou um transeunte chamando a atenção do João, que fez a curva na contramão. Tarde demais, a vida ficou pra trás e os chinelos de borracha também. João voou como em seu colorido sonho, mas, dessa vez, não despertou. Adormeceu.

 

 

 

 



Escrito por Antônio Dourado às 16h57
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Alheios ao Novo Mundo.

 

 

Alheios ao Novo Mundo.
Por Antônio Dourado / Foto from web.

 

Sereno. Por entre ônibus incendiados, crianças carentes e mendigos sem dente, o velho caminha. Despreza sirenes e, em passos leves, arrasta o chinelo “chilep, chilep, chilep”.  Leva pra casa a baguete, o jornal de domingo e algumas poucas frustrações. Nada que lhe cause estresse. Atravessa hesitante, mas sempre elegante, a louca avenida que separa o seu prédio de todo o caos. Sem pressa, repete a brincadeira de outrora, pisando dentro e fora, das velhas pedras do calçadão. É de novo um menino, e se equilibra no passeio, seguindo o cheiro do café fresquinho. Brinca com o gato e beija a testa da esposa, que na cozinha repousa e lhe espera na mesa. Serena.

 

 



Escrito por Antônio Dourado às 09h59
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Sobre Homens e Serpentes



Sobre Homens e Serpentes

Por Antônio Dourado (texto e foto).

 
Aflita. Assim voltou Serena da floresta encantada, pois o seu balde, outrora cheio, estava repleto de nada. Cheia de coragem se armou de argumentos, pensando: não trouxe a cobra, mas vou mostrar o pau. Visceral como o mais puro instinto animal. E foi assim, esbravejando com o porrete em mãos, como se regesse desvairadamente uma orquestra, que Serena contou sua epopéia: perdoai-me meus irmãos, eu falhei em minha missão. Mas não sem antes lutar bravamente. Acontece que ela, a Serpente, não está mais sozinha. Um dos seus ovos eclodiu e, pasmem vocês, outra cobra surgiu. De agora em diante, não posso mais buscar os ovos sozinha. Sendo assim meus irmãos, assim como a Serpente, preciso de companhia. Dessa forma, dois de nós enfrentam os demônios, enquanto o outro enche o balde com seus ovos. Depois, fugimos rapidamente, apagando nossos rastros para que não nos siga a Serpente. E então, quem se habilita? Alguns segundos se passaram até que o Prefeito quebrasse o incomodo silêncio que pairava no ar, dizendo: Senhoras e Senhores, a partir de hoje, nos alimentaremos de frutas. Sem mais perguntas, então. Vão.



Escrito por Antônio Dourado às 16h28
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Knocking On Heaven's Door

Knocking On Heaven's Door.

Por Antônio Dourado (texto e foto).

 

Tocar o céu. Esse era o desejo de Amadeus dos Santos que, apesar do nome, jurava ser ateu.
Mesmo assim, como São Thomé, Amadeus queria ver pra crer. Que mal há em querer saber?
 

Então, todo dia antes do galo cantar, lá estava o Amadeus a pregar. Trabalhava sem parar
construindo a nova torre de Babel - ou seria uma escada de papel? - para nos portões do céu chegar.
 

Assim, sem avisar, entraria no céu de supetão, pegando Deus com as calças na mão.
Se Deus existisse é claro. Amadeus tinha fé que não. Mas, armado de argumentos rotundos, continuava a pregar sem descanso, soerguendo convicção rumo ao teto do mundo.
 

A torre subia e, vislumbrando o mundo de cima, Amadeus sorria cético. Faltava pouco pra tomar o céu de assalto. Mas, de repente, um sobressalto!

Deus respirou muito forte, e o vento partiu contundente do Norte. Infortúnio... Depois do estrondo, a torre também partiu.

 

Puta que pariu! E não é que o Amadeus caiu :O Mas não sem antes gritar:

 

Meu Deus, se é que existes, não custa nada me ajudaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar...



Escrito por Antônio Dourado às 16h27
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The old blue jeans



The old blue jeans.

Por Antônio Dourado (texto e foto).

 

Blue... Cor de calça surrada, amaciada pelo tempo e condecorada pelo cimento das calçadas do meu quintal.

Horas de varal. Na velha calça esfarrapada, bolsos cheios de história, repletos com areia da minha terra, poeira das estrelas e sementes de aroeira.

No sinistro, portátil memória, moedas diminutas e notas mofadas compartilham informação. E assim, a calça azul segue viagem até chegar à estação, onde troco o real por um pacote de ilusão. Faço fumaça, mãos nos bolsos, enquanto espero Godot tomando um café. Minha pequenina dose de fé. O velho jeans ganha mais uma história, mas, se não me falha a memória, Godot não vem. Nem ele, nem ninguém. Devoto, espero de pé a luz no fim do túnel. Mais um trem e um punhado de memórias passam rápido pela janela, the old blue jeans, o que mais nos espera?



Escrito por Antônio Dourado às 09h45
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Fly Me to The Moon.



Fly me to the moon.

Por Antônio Dourado / Foto from web.



Sem a menor pretensão. Assim, sentado ao lado de um conformado gárgula, nosso herói dedilhava sua velha guitarra desafinada, de poucas cordas, murmurando uma antiga canção.

Do alto do prédio contemplava o colorido das luzes da cidade, que dormia enquanto ele sonhava. Fazia frio naquela noite e os dedos de Ícaro congelavam.

Assim, suas notas musicais flutuavam desiguais por entre estrelas e varais... Fly me to the moon, and let me play among the stars. Let me see what spring is like on Jupiter and Mars...

Os vira-latas de plantão encorpavam a melodia que a noite envaidecida já não podia mais ignorar. E então, como Prometeu, Ícaro se lançou ao vazio, guitarra em punho, ganhando o céu com as suas asas de vinil.

Flutuou feliz entre acordes congelados na direção da lua cheia, seu primeiro amor, onde pousou e compôs uma bela canção... Sem a menor pretensão.



Escrito por Antônio Dourado às 10h42
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